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Confira na íntegra reportagem da Folha de S. Paulo publicada na ocasião dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos em que o presidente da Andhep, Eduardo Bittar, foi entrevistado.
10/12/2008
Declaração muda discurso mundial, mas não evita transgressões
MÁRCIA SOMAN MORAES
da Folha Online
Nesta quarta-feira, a Declaração Universal dos Direitos Humanos
completa 60 anos como um marco internacional de reconhecimento da
dignidade do ser humano, porém diante do desafio de abandonar o
idealismo pela efetividade.
"A declaração transformou o discurso legislativo mundial, mas a
eficácia das leis é um problema a parte. Não basta legislar para
realizar", avalia Eduardo Bittar, advogado e presidente da Associação
Nacional de Direitos Humanos.
A declaração foi assinada em 10 de dezembro de 1948 como uma
esperança comum às principais potências mundiais que acabavam de
presenciar as atrocidades da Segunda Guerra (1938-1945) e queriam meios
de evitar uma nova barbárie.
Entretanto, fora da Assembléia Geral da ONU, os governos falharam em
colocar na prática a igualdade proclamada pela declaração. "O que vimos
foram algumas conquistas e um grande fracasso dos líderes mundiais na
defesa dos direitos humanos. A injustiça, desigualdade e impunidade que
inspiraram o texto continuam como a marca do nosso mundo", diz Javier
Zuniga, conselheiro especial da Anistia Internacional para Programas
Regionais.
Liderança coletiva
A Anistia Internacional é uma das maiores críticas do grande abismo
entre o idealismo da declaração e a prática. Em seu relatório anual, a
organização aponta que pessoas ainda são mal tratadas ou torturadas em
ao menos 81 países; submetidas a julgamentos injustos em ao menos 54; e
impedidas de se manifestar livremente em ao menos 77.
O apelo é para que os grandes do cenário internacional --Estados
Unidos, União Européia, China e Rússia-- liderarem um esforço de defesa
dos direitos humanos e romperem barreiras diplomáticas de assuntos
aparentemente "intocáveis", como a prisão americana na base naval de
Guantánamo, em Cuba, ou a intolerância russa na Tchetchênia.
"Fala-se no terrorismo como mal do século 21, mas, na África, morre,
a cada minuto, a mesma quantidade de pessoas que morreu [nos ataques
terroristas da semana passada em Mumbai]. E isso só porque elas não têm
como comprar arroz", critica Zuniga, ressaltando a necessidade de uma
reorganização das prioridades internacionais.
Fragmentação
A efetividade dos parâmetros internacionais dos direitos humanos
passa por uma lição da própria história. A aprovação da declaração foi
seguida por diversos pactos e convenções adotados para especificar as
noções idealistas da carta e proteger aquelas minorias que despontavam
como grandes vítimas.
Desta forma, a ONU aprovou, entre outros, convenções contra
discriminação racial e da mulher, pelos direitos da criança, dos povos
indígenas, dos refugiados e dos deficientes.
Porém, se os textos permitiram a operacionalização da declaração de
1948, eles também causaram uma fragmentação do conceito de direitos
humanos que os afastou do caráter universal original. "Você se afasta
do conceito mais importante da declaração de que todo o ser humano é
igual e estabelece uma série de diferenças e grupos nos quais ele
precisa estar para ter direitos", avalia Regina Célia Pedroso, doutora
em história pela USP (Universidade de São Paulo) e professora de
direito da Universidade Mackenzie.
"E onde fica o direito do cidadão comum?", questiona Pedroso, autora
do livro "10 de Dezembro de 1948. A Declaração Universal dos Direitos
Humanos".
Educação
Para Bittar e Pedroso, é justamente no cidadão comum, e não no
Estado, que está o caminho para a maior efetividade dos direitos
humanos. Os dois defendem que a igualdade está além de uma simples
legislação ou ato político e carrega um dos principais conceitos da
cidadania.
"A declaração transformou o discurso legislativo mundial, porém a
eficácia das leis é um problema a parte. Não basta legislar para
realizar. É necessário que os ideais proclamados pela declaração se
tornem parte da cidadania e um mecanismo de orientação na construção de
políticas públicas", avalia Bittar.
O desafio esbarra no mesmo idealismo que inspirou a declaração:
educar seres humanos de mais distintas culturas, valores morais e ainda
profundamente marcados pelo preconceito a aceitar a todos como iguais.
"A maioria dos Estados impôs seus conceitos como lei, mas as pessoas
não estão aptas, educadas a seguir esta lei que fica no campo da
utopia", avalia Pedroso. "E a mudança de mentalidade não é imediata e
nem fácil de se conquistar."
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